Do Empoderamento ao Co-erguer

Mar 8, 2022

Há alguns dias atrás estava a falar com um grupo de inovadores sociais sobre a realização de projectos em África e durante os nossos intercâmbios surgiu a palavra Empowerment. Foi dito, “precisamos de dar poder às pessoas!”

Senti imediatamente medo e tristeza. Medo de iniciar um novo projecto repetindo os mesmos passos que conduzem a uma visão de escassez. Tristeza porque percebo a boa intenção de ajudar, de contribuir mas ainda assim feito através da lente de um mundo patriarcal, separado e antropocêntrico. A capacitação lembra-me a ideia de algo sem vida, sem poder e que necessita de uma força externa para acordar e agir.

Observo que esta tem sido a narrativa das últimas décadas, na implementação de alguns projectos sociais. Onde lhe é pedido para definir a necessidade ou o problema, mas não lhe é pedido para falar sobre o potencial ou sobre o que é forte e o que funciona bem.

O padrão repete-se em alguns programas de desenvolvimento: o clássico fazer para e não com ou a partir do que está vivo na comunidade. Acredito que mesmo nas situações mais difíceis, a qualidade da nossa presença como empresários permite-nos ver a essência, o oásis e a abundância de pessoas e lugares.

Talvez uma definição alternativa, para mim, seja co-arising; quando posso com a qualidade da minha presença e escuta, ver a essência e o potencial da pessoa à minha frente ou um lugar onde estou. Em vez de julgar e oferecer soluções rápidas, paramos e ouvimos para ganhar uma melhor compreensão, aproveitamos as possibilidades para além do óbvio,

soluções de desgaste.

“Os tempos são urgentes, precisamos de abrandar”

Provérbio iorubá

Quando partilho com a outra pessoa a essência e o potencial que vejo nelas, uma nova compreensão de si próprio é despertada nelas. É um diálogo onde estamos em relação. Posso ver a especificidade da pessoa mas também a sua totalidade, a humanidade que também é minha, para além das funções e do estatuto social e económico.

O outro momento de florescimento da pessoa é também o meu momento de florescimento. De facto, não estou fora da natureza, da comunidade ou do grupo de pessoas que quero servir.Faço parte desse sistema. Estou ligado, interdependente. E cada impulso de vitalidade ou sinal de fraqueza tem um impacto sobre mim. Eu não me levanto sem que todos nós nos levantemos.

Esta realização transforma-me! Liga-me! É esta ligação que me torna mais criativo, capaz de trazer vitalidade a todo o sistema do qual faço parte.

A regeneração pode ser sobre co-arising: que lugares e comunidades fazemos melhor partindo da sua essência, do que a torna forte e vibrante?

Em Agosto de 2021 estive em Moçambique a convite da Girl Move Academy para facilitar um programa de transformação comunitária no contexto da pandemia de Cabo Delgado e da crise da COVID. Esta reflexão provém da experiência em expansão que tive com a comunidade local.

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *